O cheiro do café passado no coador de pano

18/07/2026

Seu Miroaldo não precisava de relógio de parede e muito menos dessas traquitanas digitais que o neto trouxe da cidade, que vivem apitando sem dar um bom-dia sequer. Para o velho Miro, o dia começava de verdade quando o galo Carijó dava o primeiro pigarro e, logo em seguida, vinha o estalo da lenha de angico pegando fogo no fogão de ferro.

Mas o sinal sagrado, aquele que arrancava o caboclo da cama num pulo só, era o perfume.

Não era qualquer cheiro. Era o cheiro do café passado no coador de pano. Aquele coador que já tinha história para contar, mais rodado que pneu de jipe de boia-fria. A comadre Ditinha, sua esposa, guardava o utensílio como se fosse taça de cristal. O pano, de tanto uso, já tinha uma cor de marrom-pinhão que nenhum alvejante do mundo ousava desafiar. "Lavar coador com sabão é pecado mortal, Miroaldo! Tira a alma do café", dizia ela, com a autoridade de quem reza para São Benedito com o bule na mão.

Naquela manhã de quinta-feira, o compadre Juca "Torta", vizinho de cerca e proseador profissional, apareceu na cozinha sem avisar, farejando o ar que nem perdigueiro em dia de caça.

— Êpa! Ô de casa! Ô Ditinha, esse rastro de cheiro tá batendo lá no meu carreador! Se eu não entro, o peito até me dói.

— Entra, Juca! Senta aí na banqueta e larga de ser exagerado — riu Ditinha, ajeitando a caneca de ágata descascada na mesa de peroba.

O café descia pelo bico do bule num fio escuro e fumegante. O aroma tomava a cozinha, subia pelos caibros do telhado e parecia amaciar até o gênio do boi de carro lá no pasto.

Juca pegou a caneca, deu aquele sopro regulamentar para não pelar a língua e puxou o primeiro gole, fazendo aquele barulho de sucção que é o verdadeiro elogio da roça: Sluuuurp.

— Rapaz... — Juca fechou os olhos, quase emocionado. — Esse café de coador de pano é uma benção. Na semana passada, inventei de ir na cidade e a minha nora me serviu um tal de café de cápsula. Uma maquininha barulhenta que parece que tá cuspindo com raiva. O café sai com uma espuma esquisita por cima, parece que passaram detergente na xícara. E o gosto? Gosto de plástico com pressa!

Miroaldo soltou uma risada frouxa, daquelas que balançam os ombros.

— Pois é, Juca. Esse povo da cidade quer tudo mastigado e correndo. Mas a vida não tem pressa não, o tempo é que corre atrás da gente. Café bom tem que ter o tempo dele. Tem que ver a água chiar, ver o pó acomodar no pano e esperar a gota cair com paciência.

— E tem mais, Miro — completou Juca, limpando o bigode com as costas da mão. — Aquela maquininha da cidade não tem o principal: não tem o carinho dos dedos da Ditinha segurando o cabo de arame, e não tem essa prosa boa que só sai quando a fumaça do bule sobe.

Ficaram os dois velhos ali, olhando para o coador pendurado no prego da parede, secando ao sol que começava a entrar pela janela. O dia podia até ser de cabo a rabo na enxada, mas com a alma lavada e passada naquele pano sagrado, o mundo parecia bem mais fácil de carregar.