O tempo das estradas de terra

18/07/2026

No tempo em que o progresso ainda não tinha botado essa capa de piche preto nas estradas, viajar de uma vila para outra era uma aventura que exigia três coisas: paciência de monge, um bom par de bois ou um jipe com tração nas quatro rodas e, acima de tudo, um desapego danado com a cor original da roupa. A poeira ou o barro, dependendo do humor do tempo, tratavam de uniformizar todo mundo num tom só de marrom-barranco.

Seu Nhô Bento, calejado de puxar fumo de corda e olhar pro céu para adivinhar chuva, gostava de prosear na venda do seu Nicolau sobre esses tempos.

— Rapaz — dizia Nhô Bento, ajeitando o chapéu de palha desfiado —, hoje esse povo reclama de buraco no asfalto. Buraco? Aquilo lá não é buraco, é cócega no pneu! No meu tempo, a estrada de terra entre o Pouso Alegre e a Chapada não tinha buraco... era o buraco que tinha alguns pedaços de estrada em volta.

Os caboclos em volta da mesa caíram na risada. Compadre Chico "Boca-Aberta", que tinha uma Variant velha que mais tossia do que andava, limpou o bigode da espuma da tubaína e emendou:

— E quando chovia, Nhô Bento? Aquilo virava um doce de leite que nem trator de esteira vencia!

— Ih, Chico, nem me fale! — continuou Nhô Bento, com os olhos brilhando com o causo que vinha vindo. — Teve uma vez, na grande cheia de setenta e quatro, que eu vinha vindo a pé, com a botina na mão e o barro no meio da canela. Nisto, avistei um chapéu de feltro muito bonito, inteirinho, bem no meio de um tremendo dum barreiro. Pensei comigo: "Mas que desperdício! Um chapéu desse valor jogado na lama?"

O povo na venda silenciou, todo mundo esticando o pescoço para ouvir.

— Cheguei perto com cuidado — prosseguiu o velho —, estiquei o braço, peguei o chapéu pela aba e puxei. Quando eu puxo, não é que tinha uma cabeça embaixo dele? Era o defunto do sargento Tonho! Tomei um susto daqueles e gritei: "Valha-me Deus, sargento! O senhor tá atolado aí até o pescoço?!"

Nhô Bento fez uma pausa dramática, tirou o palha da boca, cuspiu de lado e soltou o arremate com aquela malícia caipira:

— E o sargento, com a lama já batendo no queixo, olhou pra mim bem calmo e falou: "Que pescoço que nada, Nhô Bento! Eu tô é em cima do meu cavalo alazão, e o bicho tá tentando achar o chão com as ferradura desde as quatro hora da manhã!"

A gargalhada foi geral, dessas de chacoalhar os caibros da venda. O tempo mudou, a terra virou asfalto e as viagens ficaram mais rápidas, mas, como bem dizia Nhô Bento, a pressa engoliu as histórias. A estrada de terra podia até segurar o corpo, mas era ali, no passo lento do barro, que a alma do caipira viajava mais longe.