A égua que sabia Latim

Pois olhe, o tal do Compadre Tonho era homem de pouca posse, mas de uma esperteza que dava até medo. Se botasse o Tonho num negócio pra vender uma pedra, em dez minutos ele saía de lá tendo vendido a pedra por preço de ouro e ainda com o comprador agradecido.
Acontece que o Tonho tinha uma égua velha, por nome de Margarida. A coitada era um trapo de bicho: cega do olho esquerdo de nascença, mancava da perna direita de trás e andava sempre com a cabeça arrastando no chão, parecendo que estava procurando tostão perdido no poeirão da estrada. Qualquer um que olhasse pra Margarida via logo que o destino dela era o descanso definitivo. Mas o Tonho não. O Tonho olhava pra ela e via uma oportunidade.
Certo dia, aportou na vila o Doutor Coriolano, um fazendeiro ricaço da capital, cheio de prosápia, que tinha comprado umas terras por ali. O homem gostava de se mostrar instruído, falava difícil, usando umas palavras que ninguém entendia, e tinha uma paixão doentia por ostentar coisas raras.
Tonho, sabendo disso, levou a égua pro meio da praça, bem na hora em que o Doutor saía da farmácia.
— Êee, Margarida... Calma, minha fiinha. Respeito é bom e conserva os dente! — dizia o Tonho, alisando o pescoço do bicho.
O Doutor Coriolano parou, olhou o animal de alto a baixo, deu uma risadinha desdenhosa e disse:
— Mas ô caboclo... Que diabo de animal é esse? A égua é manca de uma perna, tem um olho seco e anda parecendo que tá lambendo a poeira do chão! Isso não vale um teto de farinha!
Tonho nem se abalou. Tirou o chapéu, coçou a testa e olhou pro fazendeiro com aquele ar de quem sabe um segredo que o resto do mundo ignora:
— Ah, Doutor... O senhor me desculpe a ignorância, mas o senhor tá julgando a capa do livro sem ler as folha! Isso que o senhor tá vendo não é defeito não, moço... É estudo!
— Estudo?! — espantou-se o Doutor. — Uma égua estudada?
— Pois não é? — continuou Tonho, abaixando a voz como quem conta um mistério da fé. — Essa égua aqui foi criada no pátio de um convento de padre franciscano. A coitada aprendeu tanto com os Frei que virou uma criatura de extrema religiosidade!
O fazendeiro, já curioso, ajeitou o monóculo:
— Como assim, religiosidade? Explique-se, homem!
— É simples, Doutor! O senhor repare que ela anda devagar e com a cabeça baixa... Isso não é fraqueza não! É humirdade! Ela anda assim em sinal de profundo respeito religioso, rezando o terço em pensamento. E aquele olho fechado? Não é cego, não! É que ela mantém o olho esquerdo fechado pro mundo terreno, pra não se contaminar com as vaidade da vida!
O Doutor Coriolano arregalou os olhos, fascinado com a prosa.
— E a perna manca, caboclo?
— Ah, a perna! — disse Tonho, dando um suspiro emocionado. — Aquilo ali é penitência! Todo dia às três da tarde ela manca pra pagar os pecado dos outros animal do pasto, que não têm a iluminação que ela tem! E tem mais, Doutor... Como viveu entre os padre, a Margarida entende latim do começo ao fim! Se o senhor falar em português com ela, ela nem dá trela, que acha vulgar. Mas se falar a língua de Roma, ela obedece que é uma beleza!
O fazendeiro, que adorava bancar o erudito e já se imaginava desfilando na capital montado numa "égua santa e poliglota", ficou com os olhos brilhando.
— E quanto você quer por essa preciosidade, Tonho?
— Ah, Doutor, vende uma relíquia dessa dá até dor no peito... Mas como eu tô precisando comprar uns bezerro, faço por um preço de amigo... — e pediu o triplo do valor de um cavalo bom.
O Doutor Coriolano não negociou. Tirou um monte de notas do bolso, pagou o Tonho na hora, pegou as rédeas da Margarida e saiu orgulhoso pela estrada.
Andou um pedaço e resolveu testar a erudição da montaria. Montou na égua, mas a Margarida não saía do lugar. Só dava uns passinhos lentos, mancos, e com o focinho quase raspando na terra.
O Doutor, lembrando das recomendações do caipira, pigarreou e gritou em bom tom:
— Margarida! Equus, curre! Festina! (que em latim quer dizer "corra, apresse-se!").
A égua nem mexeu as orelhas. Deu mais um passo manco e soltou um suspiro cansado.
O fazendeiro tentou de novo, mais alto:
— Vade retro, Margarida! Avena et herba tibi dabo! Sanctus, Sanctus! Acelere, besta divina!
E a égua nada. Ficou parada debaixo de um sol de rachar, parecendo uma estátua de barro rachado.
Foi aí que vinha passando pela estrada o compadre Zé do Laço, tocando uma tropa. Vendo o doutor da cidade vermelho de raiva, gritando palavras esquisitas em cima da égua manca, Zé parou o burro e perguntou:
— Ô moço... Que desespero é esse aí com a égua do Tonho?
— Estou mandando este animal caminhar em latim! — esbravejou o Doutor, bufando. — O Compadre Tonho me garantiu que ela entende a língua sagrada! Falou que ela anda devagar por humildade e manca por penitência!
O Zé do Laço olhou pra cara do Doutor, olhou pra égua, e caiu na gargalhada. Uma risada de sacudir os ombros que ecoou pelo vale inteiro.
— Ah, Doutor... O Tonho enganou o senhor direitinho! A única reza que essa égua entende, e na língua mais clara do mundo, é o estalar do relho no couro! A coitada é cega, manca e velha de dar dó!
O Doutor Coriolano percebeu a besteira que tinha feito. Ficou da cor de um pimentão maduro, desceu da égua e voltou a pé pra vila, cuspindo fogo de tanta raiva, disposto a achar o caipira pra reaver o dinheiro.
Mas quando chegou na venda do Nhô Bento, o Tonho já tinha sumido no mapa, montado num burro novo e com o bolso cheio de dinheiro. No balcão, o astuto caboclo tinha deixado apenas um recado pro Doutor, escrito num pedaço de papel de embrulhar pão:
"Doutor, esqueci de avisar: a Margarida entende latim sim, mas é latim mudo. E pra ir até a cidade, não precisa apressar ela não... Deixa a coitada ir rezando, que o caminho é longo e o céu é logo ali!"