A égua que sabia Latim

21/07/2026

Pois olhe, o tal do Compadre Tonho era homem de pouca posse, mas de uma esperteza que dava até medo. Se botasse o Tonho num negócio pra vender uma pedra, em dez minutos ele saía de lá tendo vendido a pedra por preço de ouro e ainda com o comprador agradecido.

Acontece que o Tonho tinha uma égua velha, por nome de Margarida. A coitada era um trapo de bicho: cega do olho esquerdo de nascença, mancava da perna direita de trás e andava sempre com a cabeça arrastando no chão, parecendo que estava procurando tostão perdido no poeirão da estrada. Qualquer um que olhasse pra Margarida via logo que o destino dela era o descanso definitivo. Mas o Tonho não. O Tonho olhava pra ela e via uma oportunidade.

Certo dia, aportou na vila o Doutor Coriolano, um fazendeiro ricaço da capital, cheio de prosápia, que tinha comprado umas terras por ali. O homem gostava de se mostrar instruído, falava difícil, usando umas palavras que ninguém entendia, e tinha uma paixão doentia por ostentar coisas raras.

Tonho, sabendo disso, levou a égua pro meio da praça, bem na hora em que o Doutor saía da farmácia.

Êee, Margarida... Calma, minha fiinha. Respeito é bom e conserva os dente! — dizia o Tonho, alisando o pescoço do bicho.

O Doutor Coriolano parou, olhou o animal de alto a baixo, deu uma risadinha desdenhosa e disse:

Mas ô caboclo... Que diabo de animal é esse? A égua é manca de uma perna, tem um olho seco e anda parecendo que tá lambendo a poeira do chão! Isso não vale um teto de farinha!

Tonho nem se abalou. Tirou o chapéu, coçou a testa e olhou pro fazendeiro com aquele ar de quem sabe um segredo que o resto do mundo ignora:

Ah, Doutor... O senhor me desculpe a ignorância, mas o senhor tá julgando a capa do livro sem ler as folha! Isso que o senhor tá vendo não é defeito não, moço... É estudo!

Estudo?! — espantou-se o Doutor. — Uma égua estudada?

Pois não é? — continuou Tonho, abaixando a voz como quem conta um mistério da fé. — Essa égua aqui foi criada no pátio de um convento de padre franciscano. A coitada aprendeu tanto com os Frei que virou uma criatura de extrema religiosidade!

O fazendeiro, já curioso, ajeitou o monóculo:

Como assim, religiosidade? Explique-se, homem!

É simples, Doutor! O senhor repare que ela anda devagar e com a cabeça baixa... Isso não é fraqueza não! É humirdade! Ela anda assim em sinal de profundo respeito religioso, rezando o terço em pensamento. E aquele olho fechado? Não é cego, não! É que ela mantém o olho esquerdo fechado pro mundo terreno, pra não se contaminar com as vaidade da vida!

O Doutor Coriolano arregalou os olhos, fascinado com a prosa.

E a perna manca, caboclo?

Ah, a perna! — disse Tonho, dando um suspiro emocionado. — Aquilo ali é penitência! Todo dia às três da tarde ela manca pra pagar os pecado dos outros animal do pasto, que não têm a iluminação que ela tem! E tem mais, Doutor... Como viveu entre os padre, a Margarida entende latim do começo ao fim! Se o senhor falar em português com ela, ela nem dá trela, que acha vulgar. Mas se falar a língua de Roma, ela obedece que é uma beleza!

O fazendeiro, que adorava bancar o erudito e já se imaginava desfilando na capital montado numa "égua santa e poliglota", ficou com os olhos brilhando.

E quanto você quer por essa preciosidade, Tonho?

Ah, Doutor, vende uma relíquia dessa dá até dor no peito... Mas como eu tô precisando comprar uns bezerro, faço por um preço de amigo... — e pediu o triplo do valor de um cavalo bom.

O Doutor Coriolano não negociou. Tirou um monte de notas do bolso, pagou o Tonho na hora, pegou as rédeas da Margarida e saiu orgulhoso pela estrada.

Andou um pedaço e resolveu testar a erudição da montaria. Montou na égua, mas a Margarida não saía do lugar. Só dava uns passinhos lentos, mancos, e com o focinho quase raspando na terra.

O Doutor, lembrando das recomendações do caipira, pigarreou e gritou em bom tom:

Margarida! Equus, curre! Festina! (que em latim quer dizer "corra, apresse-se!").

A égua nem mexeu as orelhas. Deu mais um passo manco e soltou um suspiro cansado.

O fazendeiro tentou de novo, mais alto:

Vade retro, Margarida! Avena et herba tibi dabo! Sanctus, Sanctus! Acelere, besta divina!

E a égua nada. Ficou parada debaixo de um sol de rachar, parecendo uma estátua de barro rachado.

Foi aí que vinha passando pela estrada o compadre Zé do Laço, tocando uma tropa. Vendo o doutor da cidade vermelho de raiva, gritando palavras esquisitas em cima da égua manca, Zé parou o burro e perguntou:

Ô moço... Que desespero é esse aí com a égua do Tonho?

Estou mandando este animal caminhar em latim! — esbravejou o Doutor, bufando. — O Compadre Tonho me garantiu que ela entende a língua sagrada! Falou que ela anda devagar por humildade e manca por penitência!

O Zé do Laço olhou pra cara do Doutor, olhou pra égua, e caiu na gargalhada. Uma risada de sacudir os ombros que ecoou pelo vale inteiro.

Ah, Doutor... O Tonho enganou o senhor direitinho! A única reza que essa égua entende, e na língua mais clara do mundo, é o estalar do relho no couro! A coitada é cega, manca e velha de dar dó!

O Doutor Coriolano percebeu a besteira que tinha feito. Ficou da cor de um pimentão maduro, desceu da égua e voltou a pé pra vila, cuspindo fogo de tanta raiva, disposto a achar o caipira pra reaver o dinheiro.

Mas quando chegou na venda do Nhô Bento, o Tonho já tinha sumido no mapa, montado num burro novo e com o bolso cheio de dinheiro. No balcão, o astuto caboclo tinha deixado apenas um recado pro Doutor, escrito num pedaço de papel de embrulhar pão:

"Doutor, esqueci de avisar: a Margarida entende latim sim, mas é latim mudo. E pra ir até a cidade, não precisa apressar ela não... Deixa a coitada ir rezando, que o caminho é longo e o céu é logo ali!"