O atalho não vale a pena

22/07/2026

Isso aconteceu lá pras bandas do Tietê, numa época em que boi bravo respeitava cerca e caipira respeitava reza, mas não respeitava muito o limite da cachaça.

Tião chegou no hospital da vila que parecia que tinha sido passado num moedor de cana. Era rasgão na camisa, barro no cabelo, e uma perna que dobrava pro lado que Deus não desenhou. O doutor, moço novo da cidade, olhou pr'aquela ruína toda e arrugou a testa:

— Mas homem de Deus! O que foi que lhe aconteceu? Parece que brigou com um bonde!

O caipira, soltando um gemido que parecia um carro de boi sem graxa, ajeitou a cabeça no travesseiro e começou:

— Ai, doutor... Brigasse com bonde era lucro. A briga minha foi com o "marvado" e com a "natureza".

O médico ficou sem entender:

— Que marvado? Alguém lhe bateu?

— Ninguém me bateu, doutor. Eu me bati. — explicou o estrupiado, respirando fundo. — A coisa começou cedo, lá na venda do Mané. O Mané, o senhor sabe, tem umas pinga que desperta até defunto. Eu, tava meio amoado, tomei uma. Depois, pra num fazer desfeita pro compadre Zé, tomei outra. E como a conversa tava boa, fui tomando "umas e outras", que é pra num perder o costume.

Ele continuou, gesticulando com a mão boa:

— Pois bem. Quando o sol já tava se escondendo atrás do morro, e a vista já tava querendo turvar, pensei: "Tião, tá na hora de ralar peito". Só que a estrada pra minha casa era comprida que só a fome. Eu, na minha sabedoria de jumento, resolvi encurtar: "Vou cruzar o pasto do Sô Joaquim, que sai rapidinho atrás de casa".

O médico ouvia, atento.

— O problema, doutor, é que no pasto do Sô Joaquim  mora o "Mandacaru". Um boi reprodutor que tem chifre de metro e gênio de sogra. Mas eu tava valente. Pulei a cerca.

Aí a voz do caipira ficou mais séria, contando o mistério da bebida:

— Doutor, as pinga do Mané faz milagre. Eu tava andando e, de repente, olhei pra frente. Vi o Mandacaru me olhando. Mas não vi um boi só. Vi dois Mandacaru! Um que era boi de verdade, chifrudo e bravo, e um que era boi de fumaça, efeito da marvada na minha vista.

— E o que o senhor fez? — perguntou o médico.

— Eu parei e pensei com os meus botões: "Tião, num tem erro. Se o boi bravar, o senhor corre e chuta o boi de fumaça, que ele some". Só que o Mandacaru num quis saber de filosofia. Baixou a cabeça, soltou uma fungada que levantou poeira e veio pra cima que nem um raio. Eu, que sou besta mas num sou tonto, dei meia volta e saí correndo. Mas a vista num ajudava!

O homem deu um suspiro doído antes do final:

— No meio da corrida, vi o desespero. Na minha frente, vi duas árvore. Uma que era e uma que não era. Uma era um angico velho, duro e forte, bom pra subir. A outra era uma árvore de sombra, de névoa, que só tava na minha cabeça. Pensei rápido: "Vou subir na árvore de fumaça, que é mais fácil e o chifre num pega".

O caipira fechou os olhos, lembrando do desastre:

— Doutor... num deu outra. Tentei subir na árvore que não era, cai de maduro no chão. E o boi que era... ah, doutor... o boi que era, me pegou de jeito e me jogou pra riba pra ver se eu tava maduro! Se num fosse o cachorro do Sô Joaquim latir, eu num tava aqui pra contar o causo.

O caipira parou de falar, olhou pro gesso na perna e concluiu, com aquela sabedoria final:

— Moral da história, doutor: bebida da venda do Mané num combina com ataio. E na dúvida, num tente subir em árvore de fumaça... que o chifre do boi de verdade num é de vento não!