O defunto que não tinha pressa

20/07/2026

Se existisse um campeonato de preguiça ali pras bandas do Ribeirão dos Patos, Nhô Chico não ganhava... não ganhava só por preguiça de ir buscar o troféu. O homem era de uma pasmaceira que dava gastura até nos calangos do muro. A vida dele era baseada numa filosofia muito própria: "Pra que fazer hoje o que eu posso deixar pra amanhã, ou quem sabe pra semana que vem, se Deus quiser?".

Numa tarde de agosto, dessas que o mormaço pesa e o vento venta, Nhô Chico pegou sua vara de pescar — que na verdade era só uma varinha de bambu com uma linha amarrada, sem anzol nem nada, que era pra nenhum peixe abusado ter a ousadia de fisgar e obrigar ele a fazer força — e marchou pro rumo do rio. Sentou-se na sombra de uma gameleira e, em menos de dois minutos, o homem desabou num sono de dar inveja a bicho da seda.

O problema é que o sono do Chico não era um sono comum. Era um apagão completo. Ele não roncava, não mexia um dedinho do pé e a respiração era tão rala que não mexia nem o fio do bigode.

Passou por ali o compadre Tonho, que vinha vindo da roça. Viu o Chico esticado, com os olhos entreabertos e uma mosca varejeira passeando na testa. Tonho chegou perto, cutucou com o cabo da enxada: nada. Pegou no pulso: frio que nem rã em brejo.

Valha-me Deus do céu! — gritou o Tonho, benzendo-se sete vezes. — O Chico esticou a canela! Morreu de cansaço de tanto ficar sentado!

Foi um rebuliço danado no Ribeirão dos Patos. Como o Chico morava sozinho e não tinha eira nem beira, a vizinhança, muito caridosa, resolveu ajeitar o velório ali mesmo na igrejinha de tábua da vila. Arranjaram um caixão de pinho emprestado — que estava guardado nos fundos da venda do Nhô Bento para alguma emergência — e deitaram o Chico lá dentro, de terno preto desbotado e as mãos cruzadas no peito.

A noite caiu e o velório estava animado. Tinha café com broa de milho, um garrafão de pinga da boa pra rebater a tristeza, e as carpideiras choravam que era uma beleza. Nhá Veva, puxando o terço, soltava uns lamentos de cortar o coração: "Ai, Coitado do Chico... Tão bom, tão sossegado... Nunca fez mal a ninguém, nunca fez nem força pra respirar..."

Lá pras tantas da madrugada, chega o Vigário, Padre Donizete, com a estola roxa e a fisionomia solene para encomendar a alma do falecido. O povo abriu ala, as velas de cera de abelha crepitavam, e o silêncio ficou respeitoso, só quebrado pelo soluço dos mais emotivos.

O Padre limpou a garganta, jogou um punhado de água benta no caixão e começou o latim com aquela voz de trovão:

Requiem aeternam dona eis, Domine... — e emendou em português claro, pro povo entender: — Irmãos, a morte é uma viagem sagrada. Nosso irmão Francisco partiu na frente. Ele agora vai caminhar rumo à Nova Jerusalém, subir os degraus de ouro do céu e andar ao lado dos anjos na glória eterna!

Nisso, a água benta fria bateu bem no meio da testa do "defunto". O calor do monte de gente na igreja, misturado com o falatório do padre, começou a quebrar aquele sono de pedra do Chico.

Lentamente, para o assombro do vilarejo, a mão direita do morto mexeu. Depois a esquerda. Um murmúrio de pavor correu a capela. As carpideiras pararam o choro no gogó.

Nhô Chico abriu um olho, depois o outro, piscando por causa da claridade das velas. Olhou para os lados, viu o povo todo de preto, olhou para as paredes do caixão de pinho e percebeu o cenário. Soltou um bocejo comprido, daqueles de deslocar o queixo, esticou os braços para fora da urna, dando uma senhora espreguiçada que fez a madeira estalar:

Aaaaaah... Mas que barulheira é essa, meu Deus do céu? Não se pode mais tirar uma soneca em paz nessa terra?

O povo quase caiu para trás. Teve comadre pulando a janela, o sacristão correu tanto que perdeu os sapatos e o compadre Tonho caiu de joelhos jurando que nunca mais bebia. O próprio Padre Donizete, pálido que nem palmito, deu dois passos para trás, segurando o crucifixo como se fosse um escudo, e gaguejou:

Ch-Chico?! Você... você ressuscitou? Deus seja louvado! Prontifique-se, homem! Vamos rezar, que a sua hora de ir pro céu chegou!

Nhô Chico olhou bem para o vigário, coçou a barba por fazer, sentou-se na beirada do caixão com as pernas balançando para fora e, com uma calma que dava até raiva, respondeu:

Ói, seu Vigário... Escutei o senhor falando aí de caminhada, de subir degrau de ouro, de andar légua e légua pra riba... Se fôr pra ir pro céu a pé, seu vigário, deixa que eu vou amanhã... Que hoje minhas perna tá num cansaço danado que o senhor nem imagina!

E dizendo isso, deitou de novo no caixão, puxou o paletó por cima da cara pra tapar a luz e voltou a dormir, deixando a paróquia inteira sem saber se rezava de agradecimento ou se chorava de desespero com tamanha preguiça.