O desemborcado do Mané Fonseca

Aconteceu lá nas bandas de Cana Verde, no tempo em que a prefeitura cismou de fazer uma tal de "Feira Internacional da Cachaça Artesanal". O povo da cidade vinha engravatado, os entendidos vinham de caderninho na mão para dar nota para o alambique, e o Mané Fonseca... bom, o Mané foi para beber mesmo.
Mané já chegou no pavilhão de chapéu torto e olho meio pregado. Ia passando de banca em banca, estendendo o copinho de café e dizendo: "Moço, pinga de qualidade a gente num bebe, a gente batiza a goela". E de bicada em bicada, de branquinha em amarelada, a física do Mané começou a mudar: a terra ficou torta e a língua, pesada como machado de roça.
Lá pela décima quinta degustação, o Mané encostou o corpo no balcão do estande da "Pinga-Fogo". Foi quando ele bateu os olhos num senhor bem apessoado, de terno cinza-chumbo, óculos de grau na ponta do nariz e uma gravata tão apertada que parecia coleira de cachorro bravo. O homem segurava uma taça de cristal com as pontas dos dedos e cheirava a cachaça como quem cheira flor de laranjeira.
O Mané arregalou os olhos, abriu um sorriso banguela de orelha a orelha e, num impulso de saudade embragada, meteu a mão aberta nas costas do sujeito. Mas foi um tapa tão seco que os óculos do homem escorregaram pro queixo e a cachaça da taça deu um banho na lapela do terno.
— Mas inté que enfim, Nicola! — gritou o Mané, dando uma risada rasgada. — Cê tá com cara de rico com essa roupa de juiz, é? Lembra de quando nóis roubava galinha no terreiro do Nhô Dico, Nicola? E aquela surra de pau de cana que teu pai te deu quando cê soltou a porca parida no meio da procissão?
A feira inteira parou. Os entendidos de cachaça olharam chocados. O homem de terno ficou vermelho de raiva, morrendo de vergonha daquela palhaçada, ajeitou a gravata, limpou as gotas da lapela com o lenço de bolso e, sem querer alongar aquele vexame no meio do povo, preferiu não dar trela pro cachaceiro. Deu as costas bem pálido e foi andando apressado para o outro lado da exposição.
Mané perdeu o homem de vista, mas não perdeu a viagem. Continuou seu itinerário sagrado de tenda em tenda, zanzando pelo pavilhão e desbaratando quanto restinho de branquinha encontrava pela frente.
Enquanto isso, lá do outro lado do evento, o tal sujeito de terno — já desacorçoado com o terno manchado de pinga — resolveu tirar o paletó cinza. Ficou só de camisa social, alvíssima, sem nenhuma dobra, alva igualzinho o leite da vaca Maiada tirado na primeira hora da manhã. Pensou ele: "Pronto, aqui sem o terno aquele bêbado infeliz não me enche mais".
Lá pela trigésima degustação, o Mané Fonseca vinha dobrando a esquina do estande do "Engenho da Serra", já trançando as pernas e enxergando dois mundos ao mesmo tempo. De repente, bate o olho naquela camisa branca reluzente. Mané tomou distância, pegou impulso, levantou a mão zona calejada e — PÁ! — meteu outro tapa de trincar a espinha nas costas do coitado.
— Ôôô Nicola! Agora sim, meu amigo! — berrou o Mané, morrendo de rir e chacoalhando o homem pelo ombro. — Cê num sabe da maior, rapaz! Eu passei ali do outro lado da feira agora há pouco e dei um tapa nas costas de um homenzinho metido de terno cinza pensando que era você! Igualzinho, Nicola! Se cê visse a cara de bravo que o infeliz fez, cê caía de costas!
O homem, que já estava por um fio, virou para trás vermelho como pimenta-malagueta, bufando de ódio, com os olhos quase pulando da cara. Olhou pro Mané, olhou pro povo que já dava gargalhada em volta, jogou o paletó manchado no braço e saiu pisando duro, enfurecido, largando a exposição para trás sem olhar nem para os lados.
O Mané apenas coçou o queixo, virou pro feirante do lado e arrematou na maior inocência:
— Vixe Maria... O Nicola agora deu pra ser invocado. Se eu soubesse que ele ia ficar tão brabo só porque eu confundi ele com o homem de paletó, tinha pago uma dose pra ele melhorar o humor!