O menino e o latão de óleo

Pois olhe, o caipira quando se junta na sombra de uma árvore numa tarde de sábado, não quer saber de complicação. O sol de três hora queimava até a testa dos carrapato na cerca, mas ali, debaixo da ramagem frondosa da mangueira do terreiro de Nhô Tião, o frescor era de fazer até preguiça pedir arrego. Tava lá o dono da casa, o compadre Zé Pedro, Nhá Chiquinha e o vigário aposentado Padre Donizete, tudo entretido num causo comprido sobre uma mula sem cabeça que tinha aparecido lá pras banda do Ribeirão Doce.
Enquanto os velho proseava, o filhote do Nhô Tião, o Toninho — um moleque de seus seis ano, levado da breca e de cabeça mais dura que nó de pau-ferro —, caçava o que fazer no quintal. Menino da roça, como todo mundo sabe, não precisa de brinquedo de loja: um toco de madeira vira boi, uma poça d'água vira mar, e qualquer tranqueira esquecida no terreiro vira parque de diversão.
E foi justamente ali perto do paiol que o Toninho achou seu "tesouro": um tambor de ferro dos grande, daqueles de duzentos litro que tinha servido pra guardar óleo de caminhão. O latão tava encostado, meio lambuzado daquela graxa preta e grossa no fundo, mas limpo por fora de tanto tomar chuva. O moleque olhou pro latão, o latão olhou pro moleque, e a ideia errada nasceu na hora.
— Isso aqui dá uma fortaleza das boa! — pensou o Tonho, e não teve dúvida: subiu num pneu velho, se debruçou na boca de ferro do tambor e se soltou lá pra dentro de cabeça pra baixo, feito tatú se metendo em toca.
O problema é que o moleque era meio atarracado, bem nutrido a base de broa de milho e leite morno com rapadura. Ele entrou fácil por causa do resto de óleo lambuzado na borda, mas quando foi se ajeitar lá dentro pra virar o corpo, a bunda entalou de um jeito que nem reza de São Judas Tadeu dava jeito! As perna do coitado ficaram pro lado de fora, esperneando no ar feito antena de barata tonta, enquanto a cabeça e o peito ficaram prensados no fundo do latao.
Lá de dentro, a voz do moleque saía abafada, ecoando no ferro que nem fantasma de mina abandonada:
— Paaaaai! Socorro, pai! A fortaleza me engoliu!
Lá na sombra da mangueira, Nhô Tião gesticulava falando da mula sem cabeça:
— Pois é, compadre Zé Pedro... a mula soltava um rronco assim grosso, que parecia vir lá de debaixo da terra...
Nhá Chiquinha parou de balançar o leque de palha, apurou o ouvido e disse:
— Escuta aqui, Tião... esse ronco aí não tá vindo da sua história não. Tá vindo ali do paiol!
Quando o grupo olhou pro canto do terreiro, a cena era de fazer rir até defunto: o latão de óleo tava de pé, mas com duas perninhas curtas mexendo desorientadas no ar e soltando um gemido abafado que nem berro de bezerro entalado no mourão.
— Valha-me Nossa Senhora! — gritou Nhá Chiquinha. — O latão criou perna!
Nhô Tião deu um pulo da cadeira de macramê, largou o palheiro no chão e correu pro paiol com os compadre tudo atrás. Chegando lá, segurou nas perna do filho e puxou. Puxou uma, puxou duas, deu um tranco... e nada! O moleque tinha virado uma rolha perfeita no gargalo de ferro.
— Puxa com força, Tião! — gritava o compadre Zé Pedro. — Aperta o quadril do menino!
— Se eu puxar mais forte eu arranco as perna do moleque e o corpo fica aí dentro, homem! — esbravejou o pai, suando mais que tampa de panela de arroz.
O moleque lá dentro gritava que parecia que tava sendo queimado vivo. Foi aí que o Zé Pedro, caipira de muitas ideia e pouca paciência, deu a solução:
— Tião, deita esse latão no chão e vamos rolar ele! O óleo do fundo lambuza o bucho dele e a força da gravidade faz o resto!
Não deu outra. Deitaram o tambor de ferro no terreiro. Nhô Tião de um lado, Zé Pedro do outro, e começou a operação de resgate mais atrapalhada do Ribeirão dos Patos. Os dois ia rolando o latão pela terra batida, e a cada volta o moleque soltava um urro diferente lá de dentro:
— Rola pra lá... isso, mais uma volta! — comandava o Zé Pedro.
CLANG! CLANG! CLANG! — fazia o latão batendo nas pedrinhas do chão.
— Aaaaai, meu estômago! TÔ FICANDO ZONZO, PAI! — berrava o Toninho da caixa de ressonância.
A vizinhança foi encostando na cerca pra ver o espetáculo. Era galinha correndo pra todo lado, o cachorro "Bambino" latindo e acompanhando o tambor, e o Padre Donizete benzendo o latão a cada metro rolado. O Nhô Tião, já sem fôlego e com a camisa encharcada de suor, empurrava o bicho morro abaixo no quintal, na esperança do moleque escorregar.
Quando o latão bateu com o fundo na raiz da mangueira — TOC! —, a lambuzada do óleo velho do fundo finalmente fez o serviço de graxa lubrificante. Com um barulho parecido com o de uma rolha saindo de garrafão de vinho — POP! —, o Toninho foi ejetado pra fora do latão, rolando na terra e parando deitado de costas, olhando pro céu, tonto que nem peru em véspera de Natal.
O moleque tava que era uma beleza: a cara toda preta de graxa, o cabelo parecendo topete de graúna e o corpo cheirando a motor de retífica de caminhão Ford 1952. Nhá Chiquinha correu com uma caneca d'água, enquanto o pai, bufando de cansaço e encostado no tambor, olhava pro filho misturando raiva com alívio.
Nhô Tião limpou o suor da testa com o manguito da camisa, olhou pro moleque ainda meio engrenado e disse:
— Pronto, Tonho! Agora tu tá mequetrefado de óleo até a alma. Já que tu tá lubrificado desse jeito, amanhã bem cedo tu vai capinar o pasto do fundo... Que se a enxada enroscar numa raiz, é só tu dar uma rebolada que tu passa direto!
E o povo na sombra da mangueira caiu na risada, enquanto o moleque levava dois dia tomando banho de sabão de soda pra voltar a ter cor de gente!